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sábado, 14 de agosto de 2010

OS RETORNADOS DE SEGUNDA GERAÇÃO

Já se passaram mais de tres decadas desde a chegada dos retornados a terras lusas. Bem cedo se começaram a fazer "encontros", onde uma vez por ano os ex-residentes de algumas cidades de Angola se juntavam para confraternizar e matar saudades de toda uma vida passada em terras do ultramar.

Tenho lido ultimamente que estes encontros tendem a acabar, tão reduzido é já o número das pessoas que ainda teimam em deslocar-se a esses locais para reencontrar antigos amigos ou conhecidos. Para mim isto é natural e aponto duas razões.

A primeira é que os mais velhos, aqueles que viveram toda uma vida nas terras de além-mar, aos poucos vão desaparecendo e com eles vai também a forma de vida, o espirito africano e que embora vivessem os seus ultimos anos em Portugal, teimaram em manter o seu modo de vida, fraterno, amigo e de sã convivencia.

A segunda é que os retornados de "segunda geração" ou simplesmente refugiados porque a maioria são naturais das ex-provincias ultramarinas, facilmente se deixou enredar por um outro modo de vida, o europeu e a maioria aos poucos foi perdendo esse "espirito angolano", essa necessidade de manter esses laços, embora fossem apenas uma vez por ano (restam poucos).

Pessoalmente acredito nestes dois factores e creiam que tenho razões para o afirmar. Em certa epoca fui apreciado por algo que ia escrevendo na NET dirigido principalmente para o ultimo grupo de pessoas no qual me incluo, mas quando descobriram quem se escondia por baixo do pseudonimo que uso nas minhas escritas, tudo o que escrevi e que tantos elogios me valeu, deixou de ter qualquer interesse.

Trinta e cinco anos são efectivamente muito tempo, todos mudamos e procuramos ocupar o nosso lugar na sociedade que nos acolheu, quer em Portugal, quer no estrangeiro, mas uma coisa é certa: desse "espirito africano" pouco resta e daí esses encontros terem os seus dias contados.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

AINDA OS RETORNADOS

Especialmente na época dos encontros anuais que os ex-residentes das cidades e vilas de Angola continuam a fazer, ouve-se com frequencia a palavra "saudosistas".
Confesso que durante muitos anos nunca apareci nesses encontros, algumas vezes por razões profissionais, mas quase sempre por um desinteresse, pois pensava na altura que seria melhor apagar duma vez por todas uma infancia e uma vivencia que foi abruptamente cortada. Puro engano!
Ao fim de trinta e dois anos, resolvi aparecer num desses encontros e embora muitas dessas pessoas que compunham o "nosso dia a dia" desses tempos, já tivessem partido e tenha vivido décadas separado das que encontrei, o reencontro foi simplesmente algo mágico! Será isto saudosismo?
Para aqueles que pensam que este "ajuntar" de gentes é um sintoma de vidas estagnadas, estão redondamente engandos. Todos têm as suas vidas e assim como as pessoas que vivem longe das suas terras voltam a elas em ocasiões especiais, os "retornados" concentram-se uma vez por ano em determinado sítio para um convívio, porque muitos deles não têm uma terra que possam chamar de sua e outros embora nascessem por cá, passaram tantos anos longe que ainda hoje se sentem tão desenraizados como aqueles que nasceram do outro lado do mar.
Se isto é saudosismo, então também sou saudosista!

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

OS RETORNADOS

Para quem é maltratado na sua terra, dificilmente esse alguem tem saudades da mesma e muito menos alberga o sonho de um dia poder voltar, ainda que seja de passagem. Tirando um ou outro caso, a maioria daqueles que deixaram Angola e todos eles em condições bem deploráveis, continuam ao fim de mais de tres décadas a fazer planos ou simplesmente sonhar, cruzarem o Atlantico de novo e matarem as muitas saudades que albergam consigo durante todos estes anos.
Será o feitiço de Angola? Penso que não é apenas isso. Ao fim destes anos todos, muitos daqueles que foram obrigados a retornar, simplesmente já nos deixaram, a nova geração que saiu com vinte, trinta ou quarenta anos, compreende perfeitamente os abusos que foram cometidos nessa altura e lá, tal como cá, não havia a minima ideia do que era a política e do mal que ela poderia causar a um povo que ansiava por uma mudança, embora não compreendesse muito bem como ela deveria ser feita.
Já falei com alguns daqueles que visitaram Angola, lá, as suas gentes, assim como os de cá, aqueles que foram obrigados a vir embora, continuam a relembrar aqueles bons tempos, sem mágoa, ressentimento e muito menos o desejo de uma suposta vingança. Só mesmo quem nasceu, cresceu ou viveu em Angola, pode entender os laços criados com o povo africano, onde a cor da pele não era impeditivo para se fazerem boas e duradouras amizades. Se houve abusos na altura, claro que os houve de ambos os lados, todos eles foram ultrapassados, ficando apenas a saudade que uniu um só povo agora dividido em duas nações.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

OS RETORNADOS

Já se passaram uns trinta e tres anos desde que a maioria dos chamados "retornados", tiveram de abandonar as terras do outro lado do Atlantico que julgavam suas e se espalharam pelos cinco continentes. Seria de esperar que ao fim de tantos anos, todos aqueles que vieram na enxurrada de 1975, estivessem completamente integrados nas terras que escolheram ou porventura aquelas donde os seus pais tinham partido há dezenas de anos.
Foi realmente um espanto para mim quando encontrei numa dessas aldeias, um homem agora na casa dos cinquenta anos, completamente inadaptado e mais, embora tenha vivido todos estes anos longe de Angola e das suas gentes, a sua pronuncia é tal e qual a de um angolano, como se tivesse deixado Angola no dia ou na semana anterior. A pronuncia seria o menos, poderia até ser engraçado, não fosse esta pessoa estar completamente dependente do álcool. Continua a trabalhar todos os dias no mesmo trabalho de há trinta e tres anos quando chegou a Portugal, com uma enxada nas mãos, mas é dinheiro ganho e dinheiro gasto na bebida. Tem apenas cinquenta e um anos, mas quem desconhece a data do seu nascimento, fácilmente lhe dá mais de sessenta e cinco anos. Como este, por certo haverá muitos mais por esse mundo fora, vítimas de uns senhores que procuraram fazer política sem estarem minimamente habilitados e o mais curioso de tudo é que em vez de lhes pedirem responsabilidades, são os homens de destaque e de referencia no Portugal que temos.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

OS RETORNADOS

Ontem tive a certeza que uma grande maioria dos antigos habitantes de Angola, não enjeita serem chamados de "retornados", como aliás fiz referencia numa intervenção que fiz recentemente.
Tenho um familiar que devido a graves problemas de saúde, "AVC", já por mais de quatro anos se encontra internado num lar para idosos, local onde lhe podem prestar os cuidados de saúde que necessita, cuidados esses que a família infelizmente não tem condições para isso. Recentemente conseguimos arranjar um novo lar com umas condições bastante melhores e uma assistencia mais completa, para onde o mudamos ontem. Como acontece sempre com todos nós quando chegamos a algum sítio desconhecido, também esta pessoa idosa se sentia apreensiva, apreensão essa agravada quando esse alguém como este meu familiar, se encontra totalmente dependente de terceiros.
Quando uma das empregadas soube que este novo utente tinha vivido bastantes anos em Angola e tinha regressado na leva de 75, chegou-se a ela e disse simplesmente: EU TAMBÉM SOU RETORNADA! Uma frase simples, mas tão cheia de significado, que foi o suficiente para acalmar esta pessoa idosa, arrancando-lhe mesmo um sorriso, aqueles sorrisos de cumplicidade que trocamos com as pessoas que já conhecemos há muitos anos.
Sim, mais do que nunca continuo a acreditar que esta palavra "RETORNADOS", identifica um povo, povo esse que não se deve envergonhar de assim ser chamado, mesmo que alguns o achem prejurativo.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

OS RETORNADOS

Li algures que alguns dos chamados "retornados" não gostam mesmo nada desta denominação, pois acham que ela é demais prejurativa para que a aceitem. É uma verdade que foi debaixo desta sigla que todos nós fomos descriminados e porventura sofremos quando sem culpa nenhuma fomos arrancados daquela terra que nos viu nascer e despejados numa outra que a maioria nem ser conhecia. Creio no entanto que a palavra "retornados", que alguns como disse se recusam a a aceitar, serve ao fim destes anos todos e falamos em mais de tres décadas, para identificar um povo que agora se encontra espalhado pelos cinco continentes e continua a querer recordar as suas origens.
É deste modo que eu entendo e aceito ser chamado de retornado, embora na verdade este termo não se aplique a mim de direito, como aliás acontece com uma grande maioria, pois não retornamos a nada, porque simplesmente nascemos lá, logo o termo correcto seria apropriadamente "refugiados". Quem faz os possíveis para se juntar nos encontros anuais que a maioria dos antigos habitantes das cidades de Angola continua a fazer, fácilmente se dá conta que é por este termo "retornados" que continuamos a ser recebidos por esses amigos, muitos deles que já não viamos há dezenas de anos. Logo, eu aceito e sou um "retornado".

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

OS RETORNADOS/SAUDADE

Quando nos encontros anuais dos retornados se fala de Angola, nota-se aquele sentimento de saudade de uma terra que marcou todos aqueles que viveram e gastaram as suas vidas em prol de algo que realmente julgavam seu. De todos aqueles que continuam a juntar-se, também se nota a saudade de muitos africanos que ficaram para trás e hoje existe a interrogação se ainda são vivos, ou se a guerra ou a fome que assolou o país, também os vitimou. No meu caso, tinha grandes amigos e antigos colegas de raça negra de quem nunca mais soube notícias.
Será que havia racismo em Angola? Estou em crer que não!
O que era preciso mudar? As grandes desigualdades então existentes e também o dar-se oportunidades iguais para que mais africanos pudessem ter acesso ao ensino superior e assim contribuissem para o desenvolvimento daquela terra que julgavamos ser de todos, sem olhar à cor da pele. Interrogo-me também hoje: onde estão esses colegas e amigos negros e mestiços que preferiram ficar, ou não conseguiram sair como nós? As lembranças continuam, por isso onde quer que estejam, só desejo e, penso que este sentimento é partilhado pela maioria, que sejam felizes e que o seu sofrimento pelos anos de guerra e privações, seja compensado com tudo de
bom.

terça-feira, 29 de julho de 2008

OS RETORNADOS - EMIGRANTES

Muitos daqueles chamados retornados, acabaram com o tempo por se tornar emigrantes, um pouco por todo o mundo. Também eu, numa fase da minha vida, pude realmente compreender e dar valor a esses homens e mulheres que na maioria longe das sua famílias, procuram nesses países que os acolheram, encontrar o que lhes foi negado em Portugal: uma vida melhor!
Só quem se tornou emigrante num país estranho, com uma lingua estranha, está em condições de ajuizar as dificuldades sentidas, quando se procura singrar numa terra estranha, rodeado de pessoas estranhas, que embora falem, não conseguimos perceber, ou percebemos bem pouco. Julgo que tambem é necessário passar a vida no estrangeiro, para se sentir essa saudade de Portugal e de tudo o que a ele está ligado. Creio que vivemos mais o que é ser português e, embora nós os retornados até tivessemos razões de sobra para nos envergonhar dessa nacionalidade, quando estamos no estrangeiro e falo de modo geral, sentimos esse apego a esta pequena terra à beira mar plantado.
Quer queiramos quer não, esta é a nossa pátria, a nossa raiz e a nossa identidade, embora por vezes nos envergonhemos dos homens que nos governam.

sábado, 26 de julho de 2008

OS RETORNADOS (continuação)

Quando se precisa não se é esquisito!
O mesmo aconteceu ao nosso jovem conterrâneo. Como não conseguia arranjar emprego na sua área, tornou-se vendedor e por ali andou até ao dia em que alguém lhe deu uma oportunidade para fazer as férias de um funcionário. Tinham-se passado já alguns anos desde que deixara a sua profissão, mas agarrou aquela oportunidade com "unhas e dentes" como se costuma dizer. À noite, enquanto outros dormiam, ele agarrava-se aos livros, tentando por-se em dia com as novas técnicas e leis de trabalho, pois se por qualquer motivo tentava esclarecer uma dúvida junto dos colegas, a resposta não se fazia esperar: se veio para o lugar de..., então tem obrigação de saber isso.
Após o mês, foi convidado para fazer parte dos quadros da empresa e passados poucos anos já tinha chegado ao topo e era agora responsável pelos serviços financeiros de mais quatro empresas do grupo além da Administração da primeira, que partilhava com mais duas pessoas.
As invejas eram muitas, mas aos poucos conseguiu impor-se a grangear a estima e o respeito dos seus colegas à excepção de um chefe de secção, que acabou por pedir a demissão.
Mais um exemplo de luta e tenacidade, própria daqueles que além de despojados e abandonados, conseguiram também ultrapassar o desdém daqueles que nos receberam.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

OS RETORNADOS (continuação)

Porque não se vive do ar, o primeiro trabalho que este jovem na casa dos vinte anos conseguiu, foi pegar numa "pedoa" e juntar-se aos homens da terra, todos já de meia idade e subir ao alto das serras para desbastar pinheiros, isto é cortar alguns à volta para que outros pudessem crescer e engrossar. Era inverno, o frio era tão intenso, que muitas vezes já nem sabia se tinha mãos, quanto mais força para continuar a brandir a "pedoa" para cortar as pequenas árvores.
Como tudo na vida, as pessoas acabam por se adaptar embora revoltados, mas foi essa mesma revolta que o ajudou a dar a volta por cima e com a coragem própria de quem já andou por outras paragens, não demorou muito a enveredar por outro caminho. Embora nunca tivesse pegado num fio eléctrico, viu uma oportunidade de ganhar dinheiro quando começaram a electrificar a pequena aldeia onde veio parar. Arranjou uns livros e ali estava ele a fazer instalações de raiz nas casas da aldeia. (até hoje ainda não ardeu nenhuma). Mas os horizontes eram demasiado pequenos para ele naquelas paragens, quando tinha meia dúzia de tostões, sem medo rumou a Lisboa. Ainda continuava com o rótulo de retornado, não podia esconder o seu local de nascimento, Angola, quando tentava arranjar emprego na mesma área em que trabalhara no outro lado do mar.
continua....

quinta-feira, 24 de julho de 2008

OS RETORNADOS

Seria ele um retornado? Dificilmene!
Como muitos outros, especialmente a classe mais jovem, também ele tinha nascido em Angola e por lá ficaria, não fosse a pressa de alguns homens, desconhecedores em absoluto da realidade angolana e despojados por completo daquilo que hoje entendemos como sentido de estado.
Encontrava-se entre as centenas de milhar que foram arrancados à pressa das terras que o viram crescer e de uma hora para a outra largados no outro lado do mar, no mesmo país, mas completamente diferente da terra que amavam e consideravam sua. Não precisou de muito tempo para se apercebe que ninguém os desejava e como nada conhecia, deixou-se conduzir pelos seus pais para uma pequena aldeia, a mesma que eles tinham abandonada há mais de trinta anos. Água só mesmo a do pequeno rio que passava a poucas dezenas de metros, electricidade não havia, continuava-se a usar os velhos candeeiros a petróleo e as velas. Pior que isso, casas de banho era algo completamente desconhecido, havia o rio para tomar banho e um giestal onde os habitantes faziam os possíveis para não se encontrar, sempre que precisavam fazer as sua necessidades fisiológicas. Também frio, sim demasiado frio para quem viveu toda uma vida em terras de África.
Sem conhecimentos, sem recursos, o que fazer numa aldeia que embora pequena, mostrava também a sua antipatia para com estes invasores?
continua....

segunda-feira, 21 de julho de 2008

OS RETORNADOS

Foi realmente um dia muito bem passado!
Embora já venham sendo realizados desde o início, para mim foi a segunda vez que pude comparecer aos encontros dos naturais e amigos da Cela que têm sido realizados todos os anos. O ano passado devido à chuva, muitos foram aqueles que fizeram abortar os seus planos para estar presentes, enquanto outros nem sequer chegaram a sair dos seus carros, pois a chuva era realmente bastante, de modo que poucos ficaram até ao final. Este ano pude então rever amigos de longa data e embora os anos tenham passado por todos, nota-se ainda o sentimento de verdadeira amizade, assim como se puderam relembrar eventos passados da nossa juventude. O termo RETORNADO está hoje um pouco esquecido, mas entre nós, ao invés do sentimento perjurativo que tal palavra encerrava quando se referiam a nós, hoje encaramos isso com orgulho e é nestes encontros que sentimos a diferença quando estamos com esses velhos amigos e com todos os outros com quem tivemos de aprender a viver durante todos estes anos.
Assim, bem hajam a todos aqueles que ano após ano, têm feito esforços para que estes encontros continuem a realizar-se e quem sabe muitos daqueles que como eu viveram longe destes eventos, possam ainda no futuro fazer um esforço para estar presentes e sentirem também este espírito que eu novamente reencontrei.
Um forte abraço para todos.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

OS RETORNADOS

Mais um dos muitos homens de coragem que apenas com vinte e quatro anos deixou a vida de miséria na sua pequena aldeia e, juntamente com a sua mulher rumou ao desconhecido, atravessando o Atlântico numa longa viagem de quase vinte dias. Quedou-se por fim no aldeamento dez, conhecido como Vila Viçosa. Como os outros, também ele soube o que era derramar literalmente o suor naquela terra que embora rica, teimava em não se dobrar aos esforços para o cultivo. Habituados às dificuldades, pouco estranharam em continuar a viver somente daquilo que a terra dava, muitas vezes valendo-se dos vizinhos para assim suprir as necessidades do dia a dia. Foi nestas circunstancias que lhes nasceram tres filhos, filhos de Angola, a terra que também eles há muito tinham adoptado como sua.
Nem mesmo na altura da ameaça da guerra em 1961, ousaram sequer pensar em abandonar a sua casa, os seus bens, pois para todos os efeitos, esta era a sua terra e por ela estavam dispostos a lutar. Da miséria no início, foram aos poucos singrando e à custa de muito trabalho tinham agora uma vida sem sobressaltos, pois além das dezenas de gado bovino que pastavam nas suas terras, ele, homem conhecedor do ramo, dedicava-se agora à compra e venda de animais.
Foi nesta situação que o no de 1975 os apanhou. Agora, contrariamente aos anos de 61, sentiram-se completamente abandonados, completamente desprotegidos por um governo que de repente lhes mostrou por a forma como se comportou, que afinal aquela terra que sempre consideraram sua, afinal não o era e, sem saberem bem o que lhes estava a acontecer, viram-se metidos num avião e largados ao abandono no aeroporto da Portela.
Com milhares de contos no bolso até então dinheiro válido, apenas lhes permitiram cambiar uns trocados,para assim rumaram à sua terra natal, a mesma pequena aldeia donde tinham partido há quase trinta anos.
Voltou de novo a agarrar o cabo da enxada e foi com ela que continuou a suprir as necessidades básicas da família. Revoltado, mas não derrotado, mostrando assim como eram feitos os homens de têmpera de antigamente. Hoje, já com mais de oitenta anos, embora reformado, ainda continua agarrada à sua enxada semeando as suas batatas, recordando com extrema saudade as terras de além-mar que diz, jamais voltará a ver.

terça-feira, 15 de julho de 2008

OS RETORNADOS

Também este homem foi daqueles que viu nascer o colonato da Cela, aliás dos que participou na construção das casas de alguns aldeamentos, por isso um dos pioneiros e um dos muitos que trocaram a sua terra algures numa aldeia perdida, das muitas que havia por esse Portugal fora, onde a vida era dura e quase sempre ingrata. Com apenas trinta anos, aventurou-se para essas terras longínquas, deixando para trás a mulher com quem casara há pouco e que só quase um ano depois, se juntou a ele na terra que adoptaram como sua.
Por ali viveram, tiveram uma filha e fizeram amigos naquela pequena cidade que viram nascer e crescer, até ao dia em que viram toda a gente a abandonar as suas casas e como elas, também eles deixaram para trás toda uma vida e procuraram refúgio na cidade de Nova Lisboa, sempre com a esperança de voltarem, logo que os tumultos se acalmassem. Como todos os outros, viram-se de repente metidos num avião que os traria de volta a um país que não os desejava.
Também como a maioria, viu-se despejado do avião e apenas com uns poucos tostões no bolso, procurou arrumo junto dos familiares mais directos, que na maioria dos casos não fecharam as portas aos seus, embora as críticas chovessem em quase todas as conversas.
Para poder sustentar a família, não teve vergonha de se agarrar a uma enxada, trabalhar nas obras, na colheita da azeitona, enfim, todo o tipo de trabalho que aparecesse que embora mal pago, sempre dava para matar a fome. Ainda tentou a imigração para França, mas devido à sua idade, não lhe foi permitido ficar. Como era funcionário público, passados uns três anos lá o chamaram para voltar de novo a trabalhar, isto quase a setenta quilómetros de sua casa. Um casal de imigrantes seus familiares, sabendo das sua dificuldades, deixaram-no dormir na sua casa, mas passados dias vieram de férias e então este homem, porque não queria importunar ninguém, sujeitava-se a dormir numa carrinha Renault 4L, a viatura do estado com que trabalhava. Não sou médico, tampouco sou adivinho ou entendido no comportamento das pessoas, mas as mazelas infligidas ao nosso coração, no meu entender, são bem piores do que aquelas que são dirigidas ao nosso corpo. Vai-se vivendo, ou por outra, vai-se arrastando os pés, já sem nenhum objectivo e isso foi o que se passou com mais este pioneiro. Deixou-nos há mais de duas décadas e, tal como viveu, um anónimo, assim faleceu!

domingo, 13 de julho de 2008

OS RETORNADOS

Exemplo de tenacidade e coragem!
O homem de quem vou falar-vos já nos deixou há quase duas décadas, mas não é por isso que deve ser esquecido, bem pelo contrário, são homens como este que nos mostram o que é enfrentar a adversidade sempre com um sorriso nos lábios, mesmo quando a saúde já era de tal forma precária, que cada dia que passava, era encarado como uma vitória.
Foi na sua juventude que deixou a grande Lisboa onde vivia desde rapaz, onde casou, e fez a longa viagem de navio até terras angolanas. Começou pelo planalto, depois mais para sul e por fim a cidade Gabela, onde o ano de 1975 o apanhou. Como muitos também ele acreditava que aquela terra que adoptara era mesmo sua, assim além de ter já um meio de vida que explorava com alguns empregados africanos, já nos últimos anos quando muitos vendiam propriedades em angola, este homem vendeu o que tinha em Portugal, para investir numa roça de café. Claro que como todos os demais, também ele junto com a família teve de abandonar tudo aquilo que construíra com o suor do seu rosto.
Carregou à pressa algumas coisas na sua carrinha e como todos os habitantes daquela cidade, empreendeu a viagem na grande coluna que rumava até à Quibala, onde alguns seguiriam o caminho de Luanda e a maioria com destino a Nova Lisboa. Mais uma vez a má sorte lhe bateu à porta, eram decorridos apenas alguns quilómetros e viu a sua carrinha com tudo aquilo que pensara resgatar consumidas pelas chamas! Apenas com a roupa do corpo, ele e a família, duas raparigas e dois rapazes, chegou a Nova Lisboa onde duas pessoas lhe deram algum dinheiro para as suas necessidades básicas. Mas continuou sempre com o mesmo sorriso nos lábios.
Depois de uma curta estada em Portugal, rumou a um país estrangeiro onde como homem de luta que era, educou tres filhos e adquiriu casa. Quando parecia que a estabilidade fora alcançada, a doença apertou o seu cerco. Primeiro foi uma perna que teve de ser cortada, mas ele com uma prótese, parecia que nada havia acontecido. Depois foi a outra perna! Mais uma vez não se deu por vencido e com duas próteses aprendeu a caminhar sozinho. Mas a doença não lhe deu tréguas e já muito debilitado retornou a Portugal, onde queria passar os seus últimos dias, que seriam efectivamente poucos. Era uma questão de horas segundo os médicos, mas novamente recusou-se a ceder até ver dois netos que tinham nascido por aqueles dias e, quando foi possível que os pais das crianças fizessem a viagem de umas centenas de quilómetros debaixo de um sol abrasador, ele olhou para as crianças, sorriu e morreu naquela mesma noite.
Deste homem guardo gratas recordações e não seria justo comigo mesmo, não narrar a coragem e a luta de alguém que mesmo face à morte, se recusou a deixar-se levar, sem que antes realizasse o seu último desejo.

sábado, 12 de julho de 2008

OS RETORNADOS

Apenas com onze anos deixou a sua aldeia, contrariamente ao que seria de esperar, não foi quando completou a quarta classe, porque nunca tinha posto os pés na escola, mas deixou os rebanhos de ovelhas que guardava nas encostas da serra, e na companhia do seu irmão mais velho e cunhada, fez-se ao mar para um país distante que nunca ouvira falar e foi poisar ao aldeamento um - Vimieiro, o primeiro a ser construído no colonato da Cela.
Por ali andou e quando toda a sua família retornou a Portugal, recusou-se a regressar a uma terra que nunca lhe dera nada e da qual não guardava boas recordações. A vida não foi fácil para um rapaz que não sabia ler, mas com esforço e coragem conseguiu dar a volta por cima, aprender a ler e escrever e tornar-se encarregado numa das maiores empresas de construções de estradas que operavam em Angola.
Quando a "famosa" descolonização o apanhou, encontrava-se com dois filhos de tenra idade e foi com estes que desembarcou num dia de Setembro no aeroporto da Portela. Passou todas as vicissitudes dos demais, acrescidas no entanto por se encontrar sozinho numa terra estranha com duas crianças pequenas. Conseguiu por fim que a Santa Casa da Misericórdia lhe arranjasse uma ama para tomar conta das crianças, isto durante os dias de semana, por isso ao domingo, era vê-lo pelas ruas de Lisboa, com os filhos pelo braço, escondendo-se nas estações do metro quando o frio apertava ou então nos bancos do jardim, onde passavam a maior parte dos fins de semana.
Como tudo na vida, os anos passaram e com eles algumas alegrias mas quase sempre dissabores. Os filhos lá continuaram à guarda da ama, o rapaz acabou por meter-se na droga e tornou-se um dos muitos sem abrigo da cidade de Lisboa. Por muito que o pai fizesse, nunca conseguiu retirá-lo daquele maldito caminho que acabaria por levá-lo à morte. A rapariga casou, é hoje mãe de dois filhos e ele, o pai, apesar das suas poucas habilitações, facilmente se tornou num homem de confiança numa empresa do ramo na construção de estradas, embora nesta altura reformado, ainda continua a trabalhar, talvez único passatempo para mitigar a sua dor. São homens assim, que fizeram com que os retornados, recebidos com pouca simpatia, mostrassem ao mundo a capacidade, a coragem, a força interior para vencer adversidades e continuar em frente.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

OS RETORNADOS

Também se morre de desgosto!
Foi dos primeiros colonos a chegar ao colonato da Cela, numa altura em que era proibido contratar pessoal local (negros) para ajudar no cultivo da terra. A vida era dura, quando o tempo não ajudava e havia poucas colheitas, tinha de se remediar com o pouco que tinha, mas quando havia abundancia nas safras, a situação não melhorava muito, pois todo o cereal era canalizado para um grémio que pagava o que bem lhe apetecia. Por muito que se trabalhasse o resultado era sempre o mesmo, daí o desencanto e o retorno à terra natal num navio que demorou dezassete dias a fazer a travessia até Lisboa.
Mas quem pisa solo africano, dificilmente se sente bem noutro lugar e foi o que aconteceu com este homem e a sua mulher, já entradotes na idade, mas ainda assim aventureiros, como é próprio dos homens de tempera de antigamente. Fez-se de novo ao mar, rumo à fazenda dum filho e dali para junto de outro, para os lados do Amboim, onde o café dava emprego a milhares de pessoas. Por ali ficou até ao ano de 1975.
Como todos os demais, também ele teve de abandonar à pressa a terra que amava e retornar de novo à sua pequena aldeia, algures para o lado da Guarda. Nunca mais foi o mesmo, sempre triste, desviava-se das pessoas com o olhar fixo algures, quem sabe nas terras do fim do mundo. Nada possuía e quando olhava para a sua antiga casa, um sorriso de dor trespassava-lhe o rosto, mas não emitia qualquer som. Assim viveu algum tempo, triste, sempre triste, até que a morte, o remédio de todos os males, resolveu um dia bater-lhe à porta e sem um queixume, deixou-se levar, era o fim de tudo, de todo o desespero, de toda a angustia, de toda uma dor que só mesmo a morte poderia sarar.

OS RETORNADOS

Pois, também eu sou dos chamados retornados, embora na verdade não sinto que este termo se aplica a mim, isto porque nasci em Angola e tirando uns cinco anos que passei em Portugal na minha infância, todo o resto foi passado naquela terra que julgava minha. Foi lá que cresci, foi lá que estudei, foi lá que desenvolvi laços fraternos com rapazes e raparigas da minha idade e que hoje não sei onde param. Foi toda uma sociedade desmantelada e espalhada pelos quatro cantos do mundo, a maioria ainda hoje sentindo-se estrangeira numa terra onde poisaram, depois de muitas angustias e tribulações.
É sobre este tema que vou escrever neste local, relatando vidas destroçadas e o recomeço do nada, nalguns casos quando as forças já não eram muitas.